
M. Rodrigues Lapa - "Homem inquieto, sensível e
exigente", nasceu em Anadia em 1897 e faleceu em 1989.
Filólogo, Professor catedrático da Universidade de Lisboa,
doutorou-se com a tese Das Origens da Poesia Lírica em
Portugal na Idade Média (1930). Foi afastado da faculdade de
Letras "a única escola do mundo para onde se entrava a
descer", em 1935, por motivos políticos e tomadas de
posição contra "as tristezas e vergonhas" da época
salazarista e contra os "profetas e salvadores que ela nos
tentava impingir". Uma vez afastado da Universidade, com
mais 32 funcionários civis e militares, entre os quais se
contavam Norton de Matos, Abel Salazar, Aurélio Quintanilha,
Carvalhão Duarte, Dias Pereira, etc, dedicou-se ao jornalismo
(Director de O Diabo, onde substituiu Ferreira de Castro) e às
investigações literárias (Clássicos Sá da Costa e Textos
Literários da Seara Nova).
Feroz opositor ao regime, foi preso em 6 de Janeiro de 1949,
"para averiguações" - decorria a campanha eleitoral
para a Presidencia da República, sendo libertado, sob caução
de 20 mil escudos, conforme revela a ficha da PIDE, publicada em Presos
Políticos no Regime Fascista V - 1949-1952, Presidência do
Conselho de Ministros, Comissão do Livro Negro sobre o Regime
Fascista, Mem Martins, 1987, p. 57. Na célebre entrevista
concedida ao Diário de Lisboa, de 5 de Janeiro, pp. 1 e 7
(centrais) comentando a situação política portuguesa afirmava:
"É chegada a oportunidade de acabar sem sobressalto com
este estado de coisas, que nos envergonha como europeus -
continuamos a ser os cafres da Europa, como nos alcunhavam
no século XVII", falava em "crimes em matéria de
educação" e referindo-se à censura disse: "Sou
escritor e orgulho-me de ter sido algum tempo jornalista (...)
Desde esse momento compreendi a trágica situação de muitos
jornalistas (...) Por isso é aproveitar esta liberdade que nos
concedem de muito má vontade, encher os pulmões de ar fresco e
dizê-las das boas e bonitas". No dia seguinte, Marcelo
Caetano responderia no mesmo jornal, contestando as afirmações
do filólogo e defendendo a Escola e a Mocidade Portuguesa.
Entrou na luta política apoiando Norton de Matos, "porque o dever dos intelectuais é, e sempre foi, nos grandes momentos de crise nacional, dar o corpo ao manifesto, servir as aspirações do Povo, comungar com ele no seu anseio de Liberdade e Justiça".
Em 1954, conjuntamente com Miguel Torga e Casais Monteiro, "honrando a nossa cultura" e "representando a oposição portuguesa", participou em S. Paulo no Congresso Internacional de Escritores.
Em 1957 exilou-se no Brasil onde leccionou em várias Universidades. "Comendo o pão que o diabo amassou" realizou investigações sobre o Setecentos Político e Cultural de Minas Gerais. Desse notável esforço "que foi muito grande, por unir a docência à investigação", resultou a atribuição da Medalha da Inconfidência Mineira, cujo patrono é Tiradentes, o herói da Independência do Brasil. Recebeu essa condecoração em 21 de Abril de 1974, na cidade de Ouro Preto. Regressa a Portugal após o 25 de Abril, altura em que dirige a Seara Nova, "verdadeira Universidade de Democracia, prestigiosa tribuna de Sérgio, Cortesão e Proença", para onde havia entrado "por mão do saudoso mestre e amigo, Luis da Cãmara Reis". Destacam-se na sua obra as Lições de Literatura Medieval (1933) e Estilística da Língua Portuguesa (1945), a edição crítica das Cantigas d'escárnio e de mal dizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses (1965) e os estudos sobre Camões, Diogo do Conto, Tomás António Gonzaga, etc. Dirigiu as colecções Textos Literários, da Seara Nova e os Clássicos Sá da Costa. Em 1983, deu à estampa As minhas Razões - Memórias de um Idealista que Quis Endireitar o Mundo.
As suas investigações literárias e linguísticas sobre a Galiza - "onde estão as nossas mais profundas raízes" - ocuparam grande parte do seu trabalho. "Como a nossa língua é radicalmente a mesma, há um problema de recuperação literária do galego, a ser resolvido naturalmente com a ajuda do português, que é a verdadeira Língua de cultura. Nisso também me tenho empenhado. Cinjo na minha actividade de escritor, as três dimensões da nossa cultura, que são cronologicamente a galega, a portuguesa e a brasileira (...) Convenci-me inteiramente de que, para nos conhecermos bem, teremos de conhecer a Galiza, onde está a nossa mais profunda raiz (...) Nunca deixei de me ocupar da Galiza, que é para mim um vício e uma necessidade; e também um dever moral".
No Brasil, as suas pesquisas abarcaram o séc. XVIII e, muito em especial, os escritores que tinham entrado na Conjuração Mineira, liderada pelo Tiradentes: Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto, Tomás António Gonzaga. Sobre estas figuras recolheu, comentou e publicou uma grande soma de documentação desconhecida, "que repunha a verdade dos factos, deturpada por um nacionalismo delirante e um tradicionalismo apegado a falsidades". Realizou investigações histórico-literárias em bibliotecas e arquivos para a elaboração de 4 livros que já publicou e que estão de há muito esgotados.
Ainda no que concerne à sua participação cívica e política, em 1956, integrou a Comissão de Honra das Comemorações no Distrito de Aveiro do 65. aniversário do 31 de Janeiro de 1891, ao lado de Rui Luís Comes, Ferreira de Castro, Barbosa de Magalhães, Álvaro Neves, Júlio Calisto, Costa e Melo, Mário Sacramento, Fernando Namora, Vírgílio Ferreira, Ramos de Almeida, António Macedo, etc.
Em 1969 presidiu ao II Congresso Republicano de Aveiro, a convite de Mário Sacramento, - "esse amigo querido, e por veneração à sua memória, aqui estou presente. Quero trabalhar convosco, estar em comunhão convosco, correr os riscos convosco".
Em 1985, foi agraciado por Mário Soares com o mais alto galardão - Grã-Cruz da Ordem Do Infante. Mais recentemente, numa entrevista ao Diário de Notícias - curiosamente no mesmo Jornal que em 1949 o havia de levar à cadeia, "ouvindo bimbilhar os sinos da Sé de Lisboa e vendo as pombas revoar livremente no céu azul" afirmava com toda a autoridade: "A crise cultural depende, em boa parte, da crise política e moral que estamos atravessando. O Pais vive um dos períodos mais dramáticos da sua longa história, assinalado pela corrupção do carácter e promoção de falsos valores. Com estes ingredientes nocivos, como pode florescer a cultura?".
Para nós ficará - sempre - o seu exemplo e a sua Lição.
"Não traímos a nossa missão, descendo de vez em quando do nosso gabinete à praça pública, onde rumorejam as multidões do Povo que trabalha. Ele precisa de nós, do nosso saber a que ainda não chegou, do nosso conselho. Nós precisamos dele, da sua energia pura e palpitante, do seu entusiasmo criador".
"O escritor que cumpre eficazmente a tarefa de nos abrir os olhos sobre as nossas faltas presta-nos um imenso serviço. (...) O culto da verdade é, para certos indivíduos, uma espécie de religião (...) um vício (...). Há homens assim; por mais que lhes façam não cessam de dizê-la: faz parte da sua natural aspiração. É assim mesmo. (...) Di-la-ei, custe o que custar; mais a verdade das vergonhas do que a verdade das grandezas (...) Di-la-ei rudemente, como é próprio do meu feitio, ou envolta em roupagens subtis, como convém a esta época de hipocrisias: mas di-la-ei sempre, por mais sacrifícios que me importe essa atitude".
Anadia, 31 de Janeiro de 1983